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Tempo de
Crise
Machado
de Assis
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Tempo de Crise
Queres tu saber, meu rico irmo, a notcia que achei no Rio de Janeiro,
apenas pus p em terra? Uma crise ministerial. No imaginas o que  uma
crise ministerial na cidade fluminense. L na provncia chegam as notcias
amortecidas pela distancia, e alm disso completas; quando sabemos de um
ministrio defunto, sabemos logo de um ministrio recm-nato. Aqui a
cousa  diversa, assiste-se  morte do agonizante, depois ao enterro,
depois ao nascimento do outro, o qual muitas vezes, graas s dificuldades
polticas, s vem  luz depois de uma operao cesariana.
Quando desembarquei estava o C.  minha espera na Praia dos Mineiros, e
as suas primeiras palavras foram estas:
 Caiu o ministrio!
Tu sabes que eu tinha razes para no gostar do gabinete, depois da
questo de meu cunhado, de cuja demisso ainda ignoro a causa. Todavia,
senti que o gabinete morresse to cedo, antes de dar todos os seus frutos,
principalmente quando o negcio do meu cunhado era justamente o que me
trazia c. Perguntei ao C. quem eram os novos ministros.
 No sei, respondeu; nem te posso afirmar se os outros caram; mas
desde manh no corre outra cousa. Vamos saber notcias. Queres comer?
 Sem dvida, respondi; vou residir no Hotel da Europa, se houver lugar.
 H de haver.
Seguimos para o Hotel da Europa que  na Rua do Ouvidor; l me deram
um aposento e um almoo. Acendemos charutos e samos.
A porta perguntei-lhe eu:
 Onde saberemos notcias?
 Aqui mesmo na Rua do Ouvidor.
 Pois ento na Rua do Ouvidor  que?
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 Sim; a Rua do Ouvidor  o lugar mais seguro para saber notcias. A casa
do Moutinho ou do Bernardo, a casa do Desmarais ou do Garnier, so
verdadeiras estaes telegrficas. Ganha-se mais em estar a comodamente
sentado do que em andar pela casa dos homens da situao.
Ouvi silenciosamente as explicaes do C. e segui com ele at um
pasmatrio poltico, onde apenas encontramos um sujeito fumando, e
conversando com o caixeiro.
 A que horas esteve ela aqui? perguntava o sujeito.
 s dez.
Ouvimos estas palavras entrando. O sujeito calou-se imediatamente e
sentou-se numa cadeira por trs de um mostrador, batendo com a bengala
na ponta do botim.
 Trata-se de algum namoro, no? perguntei eu baixinho ao C.
 Curioso! respondeu-me ele; naturalmente  algum namoro, tens razo;
alguma rosa de Citera.
 Qual! disse eu.
 Por qu?
 Os jardins de Citera so francos; ningum espreita as rosas por fora . . .
 Provinciano! disse o C. com um daqueles sorrisos que s ele tem; tu no
sabes que, estando as rosas em moda, h certa honra para o jardineiro. . .
Anda sentar-te.
 No; fiquemos um pouco  porta; quero conhecer esta rua de que tanto
se fala.
 Com razo, respondeu o C. Dizem de Shakespeare que, se a humanidade
perecesse, ele s poderia comp-la, pois que no deixou intacta uma fibra
sequer do corao humano. Aplico el cuento. A Rua do Ouvidor resume o
Rio de Janeiro. A certas horas do dia, pode a fria celeste destruir a cidade;
se conservar a Rua do Ouvidor, conserva No, a famlia e o mais. Uma
cidade  um corpo de pedra com um rosto. O rosto da cidade fluminense 
esta rua, rosto eloqente que exprime todos os sentimentos e todas as
idias...
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 Continua, meu Virglio.
 Pois vai ouvindo, meu Dante. Queres ver a elegncia fluminense. Aqui
achars a flor da sociedade,  as senhoras que vm
escolher jias ao Valais ou sedas a Notre Dame,  os rapazes que vm
conversar de teatros, de sales, de modas e de mulheres. Queres saber da
poltica? Aqui sabers das notcias mais frescas, das evolues prximas,
dos acontecimentos provveis; aqui vers o deputado atual com o deputado
que foi, o ministro defunto e s vezes o ministro vivo. Vs aquele sujeito? 
um homem de letras. Deste lado, vem um dos primeiros negociantes da
praa. Queres saber do estado do cmbio? Vai ali ao Jornal do Comrcio,
que  o Times de c. Muita vez encontrars um coup  porta de uma loja
de modas:  uma
Ninon fluminense. Vs um sujeito ao p dela, dentro da loja, dizendo um
galanteio? Pode ser um diplomata. Dirs que eu s menciono a sociedade
mais ou menos elegante? No; o operrio pra aqui tambm para ter o
prazer de contemplar durante minutos uma destas vidraas rutilante de
riqueza,  porquanto, meu caro amigo, a riqueza tem isto de bom consigo,
  que a simples vista consola.
Saiu-me o C. tamanho filsofo que me espantou. Ao mesmo tempo agradeci
ao cu to precioso encontro. Para um provinciano, que no conhece bem a
capital,  uma felicidade encontrar um cicerone inteligente.
O sujeito que estava dentro chegou  porta, demorou-se alguns instantes, e
saiu acompanhado por outro, que ento passava.
 Cansou de esperar, disse eu.
 Sentemo-nos.
Sentamo-nos.
 Fala-se ento de tudo aqui?
 De tudo.
 Bem e mal?
 Como na vida.  a sociedade humana em ponto pequeno. Mas por
enquanto o que nos importa  a crise; deixemos de moralizar...
Interessava-me tanto a conversa, que pedi ao C. a continuao das suas
lies, to necessrias a quem no conhecia a cidade.
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 No te iludas, disse ele, a melhor lio deste mundo no vale um ms de
experincia e de observao. Abre um moralista; encontrars excelentes
anlises do corao humano; mas se no fizeres a experincia por ti mesmo
pouco te valer o teres lido. La Rochefoucauld aos vinte anos faz dormir;
aos quarenta  um livro predileto . . .
Estas ltimas palavras revelaram no C. um desses indivduos doentes que
andam a ver tudo cor de morte e do sangue. Eu que vinha para divertir-me,
no queria estar a braos com um segundo volume de nosso Padre Tom,
espcie de Timon cristo, a quem dars a ler esta carta, acompanhada de
muitas lembranas minhas.
 Sabes que mais? disse eu ao meu cicerone, vim para divertir-me, e por
isso acho-te razo; tratemos da crise. Mas por enquanto nada sabemos, e...
 Aqui vem o nosso Abreu, que h de saber alguma cousa.
O Dr. Abreu que entrou nesse momento, era um homem alto e magro,
longo bigode, colarinho em p, palet e calas azuis. Fomos apresentados
um ao outro. O C. perguntou-lhe o que sabia da crise.
 Nada, respondeu misteriosamente o Dr. Abreu; apenas ouvi ontem de
noite que os homens no se entendiam...
 Mas eu j hoje ouvi dizer na praa que havia crise formal, disse o C.
  possvel, disse o outro. Sa agora mesmo de casa, e vim logo para
aqui... Houve Cmara?
 No.
 Bem; isso  um indcio. Estou capaz de ir  Cmara...
 Para qu? Aqui mesmo saberemos.
O Dr. Abreu tirou um charuto de uma charuteira de marroquim encarnado,
e fitando muito os olhos no cho, como quem est seguindo um
pensamento, acendeu quase maquinalmente o charuto.
Soube depois que era um meio inventado por ele para no oferecer
charutos aos circunstantes.
 Mas que lhe parece? perguntou-lhe o C. passando algum tempo.
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 Parece-me que os homens caem. Nem podia deixar de ser assim. H
mais de um ms que andam brigados.
 Mas por qu? perguntei eu.
 Por vrias cousas; e a principal  justamente a presidncia da sua
provncia...
 Ah!
 O Ministro do Imprio quer o Valadares, e o da fazenda insiste pelo
Robim. Ontem houve conselho de ministros, e o do Imprio apresentou
definitivamente a nomeao do Valadares... Que faz o colega?
 Ora, vivam! Ento j sabem da crise?
Esta pergunta era feita por um sujeito que entrou pela loja mais rpido que
um foguete. Trazia na cara uns ares de gazeta noticiosa.
 Crise formal? perguntamos todos.
 Completa. Os homens brigaram ontem de noite; e foram hoje de manh
a S. Cristvo...
 o que dizia, observou o Dr. Abreu.
 Qual o verdadeiro motivo da crise? perguntou o C.
 O verdadeiro motivo foi uma questo da guerra.
 No creia nisso!
O Dr. Abreu disse estas palavras com um ar de to altiva convico, que o
recm-chegado replicou um pouco enfiado:
 Sabe ento o verdadeiro motivo mais do que eu que estive com o
cunhado do Ministro da Guerra?
A rplica pareceu decisiva; o Dr. Abreu limitou-se a fazer aquele gesto com
que a gente costuma dizer: Pode ser...
 Seja qual for o motivo, disse o C., a verdade  que temos crise
ministerial; mas ser aceita a demisso?
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 Eu creio que , disse o Sr. Ferreira (era o nome do recm-chegado) .
 Quem sabe?
Ferreira tomou a palavra:
 A crise era prevista; eu h mais de quinze dias anunciei ali em casa do
Bernardo, que a crise no podia deixar de estar iminente. A situao no
podia prolongar-se; se os ministros no concordassem a Cmara os
obrigaria a sair. J a deputao da Bahia tinha mostrado os dentes, e at
sei (posso diz-lo agora) sei que um deputado do Cear estava para
apresentar uma moo de desconfiana...
Ferreira disse estas palavras em voz baixa, com o ar misterioso que convm
a certas revelaes. Nessa ocasio ouvimos um carro. Corremos  porta;
era efetivamente um ministro.
 Mas ento no esto todos em S. Cristvo? observou o C.
 Este vai naturalmente para l.
Ficamos  porta; e o grupo foi-se pouco a pouco aumentando; antes de um
quarto de hora ramos oito. Todos falavam na crise; uns sabiam a cousa de
fonte certa; outros por ouvir dizer. O Ferreira saiu pouco depois dizendo que
ia  Cmara saber o que havia de novo. Nessa ocasio apareceu um
desembargador e indagou se era exato o que se dizia relativamente  crise
ministerial.
Afirmamos que sim.
 Qual seria a causa? perguntou ele.
O Abreu, que dera antes como causa a presidncia l da provncia, declarou
agora ao desembargador que uma questo da guerra produzira o desacordo
entre os ministros.
 Est certo disso? perguntou o desembargador.
 Certssimo; soube-o hoje mesmo do cunhado do Ministro da Guerra.
Nunca vi maior facilidade em mudar de opinio, nem maior descaro em
colhr as afirmaes alheias. Interroguei depois o C. que me respondeu:
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 No te espantes; em tempo de crise  sempre bom mostrar que se anda
bem informado.
Dos presentes eram quase todos oposicionistas, ou pelo menos faziam coro
com o Abreu, que fazia diante do cadver ministerial o papel de Bruto
diante do cadver de Csar. Alguns defendiam a vtima, mas como se
defende uma vtima poltica, sem grande calor nem excessiva paixo.
Cada personagem novo trazia uma confirmao ao trato; j no era trato;
evidentemente havia crise. Grupos de polticos e politices estavam parados
s portas das lojas, conversando animadamente. De quando em quando
surgia ao longe um deputado. Era logo cercado e interrogado; e s se colhia
a mesma cousa.
Vimos ao longe um homem de 35 anos, meo na altura, suas, luneta
pnsil, olhar profundo, acompanhando uma influncia poltica.
 Graas a Deus! agora vamos ter notcias frescas, disse o C.
Ali vem o Mendona; h de saber alguma cousa.
A influncia poltica no pde passar de outro grupo; o Mendona veio ao
nosso.
 Venha c; voc que lambe os vidros por dentro h de saber o que h?
 O que h?
 Sim.
 H crise.
 Bem; mas os homens saem ou ficam?
Mendona sorriu, depois ficou srio, corrigiu o lao da gravata, e murmurou
um: no sei; assaz parecido com um: sei demais.
Olhei atentamente para aquele homem que parecia estar senhor dos
segredos do Estado, e admirei a discrio com que os ocultava de ns.
 Diga o que sabe, Sr. Mendona, disse o desembargador.
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 Eu j disse a V. Ex.a o que h, interrompeu o Abreu; pelo menos tenho
razo para afirm-lo. No sei o que sabe l o Sr. Mendona, mas creio que
no estar comigo...
Mendona fez um gesto de quem ia falar. Foi cercado por todos. Ningum
ouviu com mais ateno o orculo de Delfos.
 Sabem que h crise; a causa  muito secundria, mas a situao no
podia prolongar-se.
 Qual  a causa?
 A nomeao de um juiz de direito.
 S!
 S.
 J sei o que , disse Abreu sorrindo. Era negcio pendente h muitas
semanas.
 Foi isso. Os homens l foram ao pao.
 Ser aceita a demisso? perguntei eu.
Mendona abaixou a voz.
 Creio que .
Depois apertou a mo ao desembargador, ao C. e ao Abreu e retirou-se com
a mesma satisfao de um homem que acaba de salvar o Estado.
 Pois, senhores, eu creio que esta verso  a verdadeira. O Mendona
anda informado.
Passa defronte um sujeito.
Anda c, Lima, gritou Abreu.
O Lima aproximou-se.
 Ests convidado para o ministrio?
 Estou; voc quer alguma pasta?
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No penses que este Lima era alguma cousa; o dito de Abreu era um
gracejo que se renova em todas as crises.
A nica preocupao do Lima eram umas senhoras que passavam. Ouvi
dizer que eram as Valadares,  a famlia do indigitado presidente. Pararam
 porta da loja, conversaram alguma cousa com o C. e o Lima, e seguiram
viagem.
 So lindas estas moas, disse um dos circunstantes.
 Eu era capaz de as nomear para o ministrio.
 Sendo eu presidente do conselho.
 Tambm eu.
 A mais gorda devia ser Ministro da Marinha.
 Por qu?
 Porque parece mesmo uma fragata.
Ligeiro sorriso acolheu este dilogo entre o desembargador e o Abreu. Viuse
ao longe um carro.
 Quem ser? Algum ministro?
 Vejamos.
 No;  a A...
 Como vai bonita!
 Pudera!
 Ela j tem carro?
 H muito tempo.
 Olhem, ali vem o Mendona.
 Vem com outro. Quem ?
  um deputado.
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Passaram os dois juntos de ns. O Mendona no nos cumprimentou; ia
conversando baixinho com o deputado.
Houve outra trgua na conversa poltica. E no te admires. Nada mais
natural do que entremear aqui uma discusso sobre crise poltica com as
sedas de uma dama do tom.
Finalmente surgiu de longe o j citado Ferreira.
 Que h? perguntamos quando ele chegou.
 Foi aceita a demisso.
 Quem  o chamado?
 No se sabe.
 Por qu?
 Dizem que os homens ficam com as pastas at segunda-feira.
Dizendo estas palavras, o Ferreira entrou, e foi sentar-se. Outros o
imitaram; alguns se foram embora.
 Mas donde sabe isso? disse o desembargador.
 Soube na Camara.
 No me parece natural.
 Por qu?
 Que fora moral deve ter um ministrio j demitido e ocupando as
pastas?
 Realmente, a cousa  singular; mas eu ouvi ao primo do Ministro da
Fazenda.
Ferreira tinha a particularidade de andar informado pelos parentes dos
ministros; pelo menos, assim o dizia.
 Quem ser chamado?
 Naturalmente o N.
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 Ou o P.
 J hoje de manh se dizia que era o K.
Entrou o Mendona; o caixeiro deu-lhe uma cadeira, e ele sentou-se ao lado
do Lima, que nesse momento descalava as luvas, ao mesmo tempo que o
desembargador oferecia rap aos circunstantes.
 Ento, Sr. Mendona, quem  o chamado? perguntou o desembargador.
 O B.
 Com certeza?
  o que se diz.
 Eu ouvi que s na segunda-feira se organizar ministrio novo.
 Qual! insistiu Mendona; afirmo-lhe que o B. foi ao pao.
Viu-o?
 No, mas disseram-mo.
 Pois acredite que at segunda-feira...
A conversa ia-me interessando; eu j tinha esquecido o interesse que ligava
 mudana dos ministros, para atender simplesmente ao que se passava
diante de mim. No imaginas o que  formar um ministrio na rua antes
que ele esteja formado no pao.
Cada qual exps a sua conjetura; vrios nomes foram lembrados para o
poder. s vezes aparecia um nome contra o qual se apresentavam
objees; ento replicava o autor da combinao:
 Est enganado; pode o F. ficar com a pasta da Justia, o M. com a da
Guerra, K. Marinha, T. Obras Pblicas, V. Fazenda, X. Imprio, e C.
Estrangeiros.
 No  possvel; o V.  que deve ficar com a pasta de Estrangeiros.
 Mas o V. no pode entrar nessa combinao.
 Por qu?
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  inimigo do F.
 Sim; mas a deputao da Bahia?
Aqui coava o outro a orelha.
 A deputao da Bahia, respondia ele, pode ficar bem metendo o N.
 O N. no aceita.
 Por qu?
 No quer ministrio de transio.
 Chama a isto ministrio de transio?
 Pois que  mais?
Este dilogo em que todos tomavam parte, inclusive o C. e que era repetido
sempre que um dos circunstantes apresentava uma combinao nova, foi
interrompido pela chegada de um deputado.
Desta vez amos ter notcias frescas.
Efetivamente soubemos pelo deputado que o V. tinha sido chamado ao pao
e estava organizando gabinete.
 Que dizia eu? exclamou Ferreira. Nem era de ver outra cousa. A situao
 do V.; o seu ltimo discurso foi o que os franceses chamam discursoministro.
Quem so os outros?
 Por ora, disse o deputado, s h dois ministros na lista: o da Justia e o
do Imprio.
 Quem so?
 No sei, respondeu o deputado.
No me foi difcil ver que o homem sabia, mas era obrigado a guardar
segredo. Compreendi que aquele  que lambia os vidros por dentro,
expresso muito usada em tempo de crise.
Houve um pequeno silncio. Conjeturei que cada qual estivesse a adivinhar
quem seriam os nomeados; mas, se algum os descobriu, no os nomeou.
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O Abreu dirigiu-se ao deputado.
 V. Ex.a acredita que o ministrio fique organizado hoje?
 Creio que sim; mas da pode ser que no...
 A situao no  boa, observou Ferreira.
 Admira-me que V. Ex.a no seja convidado...
Estas palavras, naquela ocasio inconvenientes, foram pronunciadas pelo
Lima, que trata a poltica como trata as mulheres e os cavalos. Cada um de
ns procurou disfarar o efeito de semelhante tolice, mas o deputado
respondeu direitamente  pergunta:
 Pois no me admira nada disso; deixo o lugar aos componentes. Estou
pronto a servir como soldado... No passo disso.
 Perdo,  muito digno!
Entrou um homem esbaforido. Fiquei surpreso. Era um deputado. 0lhou
para todos, e dando com os olhos no colega, disse:
 Podes dar-me uma palavra?
 Que ? perguntou o deputado levantando-se.
 Vem c.
Foram at  porta, depois despediram-se de ns e seguiram
apressadamente para cima.
 Esto ambos ministros, exclamou Ferreira.
 Acredita? perguntei eu.
 Sem dvida.
Mendona foi da mesma opinio; e foi a primeira vez que o vi adotar uma
opinio alheia.
Eram duas horas da tarde quando saram os dois deputados. Ansiosos por
saber mais notcias, samos todos e descemos a rua vagarosamente. Grupos
de quatro e cinco se entretinham com o assunto do dia. Parvamos;
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combinvamos as verses; mas no retificavam as dos outros. Um desses
grupos j estavam os trs ministros nomeados; outro acrescentava os
nomes dos dois deputados, pela nica razo de os ter visto entrar num
carro.
s trs horas j corriam verses de todo o gabinete, mas era tudo vago.
Determinamos no voltar para casa sem saber do resultado da crise, salvo
se a notcia no viesse at s cinco horas, pois era de mau gosto (disse-me
o C.) andar na Rua do Ouvidor s 5 horas da tarde.
 Mas qual ser o meio de saber? perguntei eu.
 Eu vou ver se colho alguma cousa, disse Ferreira.
Vrios incidentes nos iam detendo a marcha: algum amigo que passava,
uma mulher que saa de uma loja, uma jia nova em uma vidraa, um
grupo to curioso como o nosso, etc.
Nada se soube nessa tarde.
Voltei para o Hotel da Europa a fim de descansar e jantar; o C. jantou
comigo. Conversamos muito do tempo da academia, dos nossos amores,
das nossas travessuras, at que a noite veio e resolvemos voltar  Rua do
Ouvidor.
 No era melhor irmos  casa do V., pois que  ele o organizador do
gabinete? perguntei.
 Principalmente, no temos tamanho interesse que justifique esse passo,
respondeu o C.; depois,  natural que ele no nos possa falar. Organizar um
gabinete no  cousa simples. Finalmente, apenas o gabinete estiver
organizado c saberemos na rua qual ele .
A Rua do Ouvidor  lindssima  noite. Esto os rapazes s portas das lojas,
vendo passar as moas, e como tudo est iluminado, no imaginas o efeito
que faz.
Confesso que me esqueceu o ministrio e a crise. Havia ento menos quem
cuidasse de poltica; a noite da Rua do Ouvidor pertence exclusivamente 
fashion, que  menos dada aos negcios do Estado que os freqentadores
de dia. Todavia, achamos alguns grupos onde se dava como certa a
organizao do gabinete, mas no se sabia ao certo quem eram os
ministros todos.
17
Encontramos os mesmos amigos da manh.
Ora, justamente quando o Mendona se dispunha a ir colher alguma cousa
certa, apareceu o desembargador com o rosto alegre.
 Que h?
 Est organizado.
 Mas quem so?
O desembargador tirou do bolso uma lista.
 So estes.
Lemos os nomes  luz do lampio de um mostrador. O Mendona no
gostou do gabinete; o Abreu achou-o excelente; o Lima, fraco.
 Mas isto  certo? perguntei eu.
 Deram-me agora esta lista; creio que  autntica.
 O que ? perguntou por trs de mim uma voz.
Era um sujeito moreno e bigode grisalho.
 Sabe quem so? perguntou-lhe o Abreu.
 Tenho uma lista.
 Vejamos se combina com esta.
Costearam-se as listas; havia engano num nome.
Mais adiante encontramos outro grupo lendo outra lista. Divergiam em dois
nomes. Alguns sujeitos que no tinham lista copiavam uma deles, deixando
de copiar os nomes duvidosos, ou escrevendo-os todos com uma cruz 
margem. Corriam assim as listas at que apareceu uma com ares de
autntica; outras foram aparecendo no mesmo sentido e s 9 horas da noite
sabamos positivamente, sem arredar p da Rua do Ouvidor, qual era o
gabinete.
O Mendona ficou alegre com o resultado da crise.
18
Perguntaram-lhe por que razo.
 Tenho dois compadres no ministrio! respondeu ele.
Aqui tens o quadro infiel de uma crise ministerial no Rio de Janeiro. Infiel
digo, porque o papel no pode conter os dilogos, nem as verses, nem os
comentrios, nem as caras de um dia de crise. Ouvem-se, contemplam-se;
no se descrevem.
********
19
Sobre o autor e sua obra
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS
nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839 e
faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de
1908. Filho de mulato, brasileiro, e de branca,
portuguesa; era gago, epilptico, pobre,  por
causa disto no pde estudar em escolas e tornouse
um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota Fluminense", foi
aprendiz de tipgrafo na Imprensa Nacional, onde
conheceu seu protetor, Manuel Antonio de Almeida;
foi revisor de provas na Editora Paula Brito e no
"Correio Mercantil" e colaborador em vrios jornais
e revistas da poca.
Na imprensa publicou vrios contos, crnicas, folhetins, artigos de crtica, muitos
dos quais assinados com pseudnimos: Plato, Gil, Lara, Dr. Semana, Job, M.A.,
Max Manasss e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina Novais, que veio dar mais inspirao  sua vida
literria. Em 1904, quando D. Carolina morreu, ainda inspirou o mais belo soneto
de sua produco: "A Carolina", publicado no livro "Relquias de Casa Velha":
"Querida, ao p do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o corao de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existncia apetecida
E num recanto ps o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
So pensamentos idos e vvidos".
Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
20
Poesias: "Crislidas", (1864); "Falenas", "Americanas".
Romances: "Ressurreio", "A Mo e a Luva", "Helena", "Iai Garcia".
Contos: "Contos Fluminenses", "Histrias da Meia Noite", (1869).
Teatro: "Desencantos", "0 Caminho da Porta", "0 Protocolo", "Quase Ministro", "Os
Deuses de Casaca". Crnicas e Crticas. Fase Realista (de 1881 a 1908)
Poesias: "Ocidentais".
Romances: "Memrias Pstumas de Brs Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esa e Jac", "Memorial de Aires". Contos: "Papis Avulsos",
"Histrias sem Data", "Vrias Histrias", "Pginas Recolhidas", "Relquias de Casa
Velha".
Teatro: "Tu, s Tu, Puro Amor" "No Consultes Mdico", "Lio de Botnica",
crnicas e crticas.
Machado de Assis  de estilo clssico e sbrio, com frases curtas e bem
construdas, vocabulrio muito rico e construes sintticas perfeitas. Sua obra 
de anlise de caracteres e seus tipos so inesquecveis e verdadeiros. Em toda sua
obra h uma preocupao pelo adultrio, tentado ou consumado, e muito de
filosofia: a filosofia do humanitismo, que  explicada no seu romance "Quincas
Borba". Sua tcnica de composio no romance  muito importante para a
compreenso da obra: no h homogeneidade na extenso dos captulos: ora
curtos, ora longos, no existe normalmente a seqncia linear, isto , muitas vezes
um captulo no tem um final de ao, que ir continuar no no imediatamente
seguinte, mas em outro um pouco distante. Esta tcnica procura prender a ateno
do leitor at o fim do livro, o que realmente consegue.
Sem dvida, trata-se do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos, o
primeiro escritor universal de nossa Literatura. De uns tempos para c, sua obra
vem sendo objeto de estudos em profundidade, sob ngulos vrios, constituindo-se
no maior acervo bio-bibliogrfico que jamais suscitou um escritor nacional.
Sobretudo, cumpre destacar-se, como a mais importante de sua obra, a parte de
fico - seus contos, verdadeiras obras-primas - e os romances a partir da fase
que se Iniciou com as "Memrias Pstumas de Brs Cubas".
Machado de Assis no se filia a qualquer coisa, dando apenas vazo ao seu prprio
sentimento de homem introspectivo.  possuidor de um estilo simples, sem
nenhum artificialismo. A conciso  uma de suas mais eloqentes caractersticas.
Cuidou, em suas obras, mais do homem do que da paisagem. No foi grande
poeta. Inicialmente passou pelo romantismo e depois mostrou-se parnasiano. Para
Machado de Assis o homem  egosta, impassvel diante da felicidade ou
infelicidade do seu semelhante. 0 sofrimento  inerente  prpria condio
humana. 0 homem sonha com a felicidade, sem suspeitar que tudo  Iluso.
21
Machado aconselha ento a solido, o Isolamento, por no crer no solidarismo
humano.
No teatro Machado de Assis se revela como tradutor, critico e comedigrafo. Como
critico procurava exaltar os valores morais. Para ele, "a arte pode aberrar das
condies atuais da sociedade para perder-se no mundo labirntico das abstraes.
0 teatro  para o povo o que o Coro era para o antigo povo grego: uma iniciativa
de moral e civilizao."
E ainda foi alm. Ressuscitando uma antiqualha dos Sculos XVII; inovou o soneto,
dando-lhe a forma contnua do (Crculo Vicioso). Outra inovao: a alternncia do
octosslabo com o tetrasslabo, de que se utilizou nos versos a Artur de Oliveira.
Combinado o octosslabo com o doclecasslabo, criou ainda o ritmo dos
agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885 uma incomparvel lio de poesia
quando, na ocasio comemorativa do centenrio do Marqus de Pombal, publicou,
sob o ttulo de A Suprema Injria, uma srie de quatorze sonetos, onde no h
dois iguais na sua forma.
Machado de Assis foi ainda um tcnico do verso, o admirvel tradutor de a primeira
fase machadiana. 0 terceiro romance, Helena, jovem confrade, e escreve poesia, a
quem devemos pelo o que seria diferente da j representa uma evoluo. Vai
eclodir com as Memrias Pstumas de Brs Cubas.
No romance como na poesia, Machado de Assis ressente-se de influencia romntica
nas primeiras obras: Ressurreio (1872), A Mo e a Luva (1875), Helena (1876) e
Iai Garcia (1878).  toda romntica a concepo dos personagens e do entrecho;
revela-se a personalidade do autor na preocupao mais acentuada do estudo dos
caracteres. Mas as situaes que arma, para os revelar, e a prpria compreenso
que deles tem, tudo trai a viso romntica, ainda que mitigada pela analise
psicolgica.
De Ressurreio, em que a narrao e linear, a lngua pobre, os caracteres de
linhas definidas, a Iai Garcia, onde a narrativa  dotada de maior penetrao, a
lngua se precisa e os caracteres j se mostram mais complexos, o progresso 
significativo. 0 mais romanesco dos trs  Helena, a confinar por vezes com a
inverossimilhana.
Memrias Pstumas de Brs Cubas
Brs Cubas, j falecido, conta, do outro mundo, as suas memrias: "Expirei em
1869, na minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos
e prsperos, era solteiro, possua trezentos contos e fui acompanhado ao cemitrio
por onze amigos". Galhofando dos ascendentes, fala da prpria genealogia.
Assevera que morreu de pneumonia apanhada quando trabalhava num invento
farmacutico, um emplastro medicamentoso.
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Virglia, sua ex-amante, que j no via h alguns anos, visitou-o nos ltimos dias
de vida. Narra Brs Cubas um delrio que teve durante a agonia: montado num
hipoptomo foi arrebatado por unia extensa e gelada plancie, at o alto de uma
montanha, de onde divisa a sucesso dos sculos. Alm dos pais, tiveram grande
influncia na educao do pequeno Brs Cubas trs pessoas: tio Joo, homem de
lngua solta e vida galante; tio Ildefonso, cnego, piedoso e severo; Dona
Emerenciana, tia materna, que viveu pouco tempo. Brs passou uma infncia de
menino traquinas, mimado demasiadamente pelo pai.
Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama espanhola, com quem teve as
primeiras experincias amorosas. Para agradar Marcela, Brs comea a gastar
demais, assumindo compromissos graves e endividando-se. Marcela gostava de
jias e Brs procurava fazer-lhe todos os gostos. "Marcela amou-me, diz Brs
Cubas, durante quinze meses e onze contos de ris". Quando o pai tomou
conhecimento dos esbanjamentos do filho, mandou-o para a Europa: "vais cursar
uma Universidade", justificou. Em Coimbra, Brs segue o curso jurdico e
bacharela-se. Depois, atendendo a um chamado do pai, volta ao Rio: a me estava
moribunda. E, de fato, apenas chega ao Brasil, a me falece. Passando uns dias na
Tijuca, conhece Eugnia, moa bonita, mas com um defeito na perna que a fazia
coxear um pouco, com ela mantm um passageiro romance.
O pai de Brs tem duas, ambies para o filho: quer cas-lo e faze-lo deputado.
Tudo faz para encaminh-lo no rumo do casamento e procura aumentar o circulo
de amigos influentes na poltica, a fim de preparar o caminho para o futuro
deputado. Assim  que Brs Cubas  apresentado ao Conselheiro Dutra que
promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida ascenso poltica.
Brs nesta altura vem a conhecer Virglia, filha do Conselheiro Dutra, pela qual se
apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do pai sobre Brs estavam prestes a
realizar-se: bem encaminhado na poltica e quase noivo. Entretanto aconteceu um
imprevisto: surge Lobo Neves que no somente lhe rouba a namorada, mas
tambm cai nas boas graas do Conselheiro Dutra.
Vendo assim preterido o filho, o pai de Brs sente-se profundamente desapontado
e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um desastre. Virglia casa-se
com Lobo Neves e, pouco tempo depois, v eleito Deputado o marido. Mas, na
verdade, Virglia casara-se com Lobo Neves por interesse, e ama realmente a Brs
Cubas. Virglia e Brs principiam a encontrar-se com freqncia e, em breve,
tornam-se amantes. Lobo Neves adorava a esposa e nela confiava inteiramente.
Alis no tinha muito tempo para observar o que se passava, j que estava
entregue totalmente  poltica.
Narra nesta altura Brs Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de escola
primria, Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua. Depois do
encontro com Quincas, Brs percebe que o maltrapilho lhe roubara o relgio. Os
encontros amorosos entre Virglia e Brs suscitam comentrios e mexericos dos
vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse motivo, Brs prope a Virglia a fuga para
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um lugar distante. Virglia, porm, pensa no marido que a ama e na famlia, e
sugere "uma casinha s nossa", metida num jardim, em alguma rua escondida. A
idia parece boa a Brs, que sai remoendo a proposta: "uma casinha solitria, em
alguma rua escura". Virglia e sua ex-empregada, chamada Dona Plcida, se
encarregam de adornar a casa e, aparentemente, quem ali reside  Dona Plcida.
Ali os dois amantes se encontram sem maiores embaraos, e sem despertarem
suspeitas. Sucedeu que, de certa feita, por motivos polticos, Lobo Neves foi
designado como presidente de uma provncia e, dessa forma, teria de afastar-se
com a mulher. Brs fica desesperado e pede a Virglia que no o abandone.
Quando tudo parece sem soluo, eis que surge Lobo Neves e, para agradar ao
amigo da famlia, convida-o para acompanh-lo como secretrio. Brs aceita. Os
mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado com Sabina, procura fazer ver
ao cunhado que a viagem seria uma aventura perigosa. Mais por superstio do
que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba no aceitando mais o cargo de
presidente, porque o decreto de nomeao sara publicado no Dirio oficial num dia
13: Lobo Neves tinha pavor pelo nmero, um nmero fatdico. Lobo Neves recebe
uma carta annima denunciando os amores da esposa com o amigo. Isso faz com
que os dois amantes se mostrem mais reservados, embora continuem
encontrando-se na Gamboa (onde fica a casa de Dona Plcida).
Surge ento um acontecimento que vem alterar a situao os personagens: Lobo
neves  novamente nomeado presidente e, desta vez, parte para o interior do pas
levando consigo a esposa. Brs procura distrair-se e esquecer a separao.
A irm Sabina, que vinha procurando "arranjar" um casamento para Brs, volta a
insistir em seu objetivo. A candidata, uma moa prendada, chamava-se Nh-lol.
Mesmo sem entusiasmo, Brs aparenta interesse pela pretendente, mas Nh-lol
vem a falecer durante urna epidemia. o tempo vai passando.
Mais por distrao do que por idealismo, Brs procura um derivativo de suas
decepes amorosas na poltica. Faz-se deputado e, na assemblia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado da provncia. Encontra-se tambm
com Virglia, que no tinha j aquela beleza antiga que o havia atrado
anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco, chegam ao fim os amores de
Brs e Virglia. Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui o relgio,
passando a ser um freqentador da casa de Brs.
Quincas Borba estava mudado: no era mais mendigo, recebera uma herana de
um tio em Barbacena. Virara filsofo: havia inventado urna nova teoria filosficoreligiosa,
o Humanitismo, e no falava noutra coisa. 0 prprio Brs Cubas passa a
interessar-se muito pelas teorias de Quincas Borba. Morre, por esse tempo, o Lobo
Neves, e Virgilia "chorou com sinceridade o marido, como o havia trado com
sinceridade". Tambm vem a falecer Quincas, Borba, que havia enlouquecido
completamente. Brs Cubas deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba,
por causa de urna molstia que apanhara quando tratava de um invento seu,
denominado " emplasto Brs Cubas".
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E o livro conclui:
"Imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio, achei-me com um
pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de negativas: no tive
filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa misria".
Fato narrativo em primeira pessoa; posio trans-temporal, a narrativa acompanha
os vaivns da memria do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural da narrativa: - forma livre, estrutura fragmentada,
ausncia de um fio lgico e ausncia de um conflito central.
Drama da irremedivel tolice humana. Brs Cubas tudo tentou e nada deixou. A
vida moral e afetiva  superada pela biologicamente satisfeita. Acomodao cnica
ao erro, ou melhor, a justificao moral interior racionalizada. Pessimismo
(influncia de Sterne, Schopenhauer, Darwin e Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo Bosi :
"Memrias Pstumas de Brs Cubas" opera um salto qualitativo na Literatura
Brasileira. "A revoluo dessa obra, que parece cavar um poo entre dois mundos,
foi uma revoluo ideolgica e formal: aprofundando o desprezo s idealizaes
romnticas e ferindo o cerne do narrador onisciente, que tudo v e tudo julga,
Machado deixou emergir a conscincia nua do indivduo, fraco e incoerente. 0 que
restou foram as memrias de um homem igual a tantos outros, o cauto e
desfrutador Brs Cubas.
Quincas Borba
Quincas Borba  um filsofo-doido. Mais na segunda que na primeira parte. Criou
uma filosofia: Humanitas. "Humanitas"  o princpio nico, universal, eterno,
comum, indivisvel e indestrutvel... Pois essa substncia, esse principio
indestrutvel  que  Humanitas... " Uma guerra: duas tribos que se encontram,
frente a frente, perto de uma plantao de batatas que s daro para sustentar
uma delas.  a luta pelas batatas. Pela sobrevivncia. A tribo que vence, ganha as
batatas. "Ao vencedor, as batatas". Filosofia e sandice condimentam as lies de
Quincas Borba.
0 filsofo tinha um co: Quincas Borba. Pusera nele o seu prprio nome. Afinal
Humanitas era comum para ele e para o co. E no s: se morresse antes
sobreviveria o oo. Um co, meio tamanho, cor de chumbo, malhado de preto. Um
filsofo assim tinha que acabar em... Barbacena. AI conheceu a Piedade, viva de
parcos meios, Era irm de Rubio. No se casou com o herdeiro. Rubio foi o
melhor amigo e enfermeiro do filsofo.
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Quando Quincas Borba morreu, numa incurvel semidemncia, na casa de Brs
Cubas, no Rio, Rubio ficou rico, herdeiro universal do falecido filsofo. Herdeiro de
tudo. Depois em breve pendncia recebeu: casa na Corte, uma em Barcelona,
escravos, aes no Banco do Brasil e muitas outras, jias, dinheiro, livros, a
filosofia do morto e o seu co Quincas Borba. A clusula nica do testamento era
tratar bem o co.
0 novo-rico muda-se para a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia. E o
pobre mestre-escola fica apaixonado por ela. Que olhos, que ombros, que
braos!... Vinte e seis anos... Cada aniversrio era um novo polimento dado pelo
tempo.  bonita, sabe que , e sabe mostrar-se. 0 marido gostava de mostr-la a
todos: vejam o que so as minhas e de se mostrar . E Sofia aprendeu logo e bem a
arte se mostrar. Sofia seduz Rubio. Engana-o... Busca o dinheiro. Ganha
presentes riqussimos. O marido funda at a sociedade Palha e Cia.
 o dinheiro de Rubio que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem l os seus
desejos escondidos para com o galanteador Carlos Maria, Pobre Rubio! 0 dinheiro
acabando, os amigos vo minguando, e a loucura vai chegando. Rubio passa
pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira,  gira...) certo que  Napoleo III .
Metem-no num Sanatrio. Rubio foge do sanatrio do Rio e vai para Barbacena.
L morre. E trs dias depois encontraram o co Quincas Borba, tambm morto,
numa rua.
 o fim? Leitor: "eia, chora os dois recentes, se tens lgrimas.Se so tens risos, rite.
 a mesma coisa.  outra crnica de fraquezas e misrias morais, concluda
com uma filosofia desencantada, a filosofia do Humanitas: "Ao vencedoras
batatas"... Uma sbita fortuna, uma paixo adltera, ambies polticas acabam
levando Rubio  loucura. Ele, que antes era um humilde mestre-escola, ingnuo e
puro, envolve-se em um novo mundo, violento e agressivo. A fraqueza o destri.
Narrado em 3a Pessoa.  o mais objetivo dos Romances de Machado. Anlise
psicolgica de um homem Pobre que subitamente fica rico e a fortuna arrasta-o 
loucura. E s a loucura salva Rubio do destino vulgar de vaidoso rico, explorado
pelos que o cercam.
O Humanitismo:
"Ao vencedor, as batatas", pode ser interpretado como uma pardia irnica ao
positivismo e evolucionismo. Posies filosficas dominantes na segunda metade
do sculo XIX-.  uma caricatura do princpio da evoluo e da seleo natural que,
na poca, saam do campo da biologia para impregnar a filosofia.
DOM CASMURRO
A prpria personagem central, Bentinho,  que conta a sua histria. Pincipia
dizendo que est morando, sozinho, auxiliado por um criado, no Engenho Novo
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(Rio de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir igual quela em que
passara a infncia, em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos apelidaram de
Dom Casmurro, apelido que pegara. A histria principia quando Bentinho j est
com quinze anos e sua amiga de infncia, Capitu, com quatorze.
Os dois crescem juntos e se estimam sinceramente. Dona Glria, me de Bentinho,
viva, tendo sido infeliz no primeiro parto, fizera a Deus uma promessa, se fosse
bem sucedida no segundo parto, o filho seria religioso (padre ou freira, conforme o
sexo)  Por isso, estava disposta a cumprir a promessa: Bentinho iria para o
seminrio.
 medida que o tempo passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se transforma
em namoro srio e apaixonado, a idia do seminrio vai-se tornando um grave
problema para os dois, que buscam todas as maneiras de evit-lo. Justina, prima
de Dona Glria, que vivia em Casa desta, e a quem Bentinho suplica que interceda
com a me em seu favor, se nega. Jos Dias, velho empregado da casa, muito
estimado, diz que o problema no  fcil, pois o melhor , antes, aplainar o
caminho. 0 prprio Bentinho, de ndole tmida, tenta falar com a me, mas nem
sequer consegue dizer-lhe o que quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanas
de evitar o seminrio. De qualquer modo, amando-se sinceramente, juram que,
acontea o que acontecer, se casaro. Bentinho ir para o seminrio, mas ficar
apenas algum tempo. Depois sair e sero felizes.
No seminrio, Bentinho trava conhecimento com Escobar, que se toma seu amigo
e confidente. A vida agora transcorre entre os estudos eclesisticos e as visitas
semanais  sua casa. Escobar em conversa com bentinho, tem uma idia: Dona
Glria, rica que , poderia cumprir a promessa de outro modo, isto , custeando as
despesas de um seminarista pobre, ficando Bentinho livre do seminrio. A idia
vinga e Bentinho retoma  casa. Anos depois, j formado em Direito, casa-se com
Capitu e comeam uma vida repleta de felicidades. E essa felicidade ainda se torna
maior quando Escobar, que tambm sara do seminrio, casa-se com Sancha,
amiga de Capitu.
As duas famlias visitam-se freqentemente. Escobar e Sancha tm uma filha, 
qual do o nome de Capitolina (Capitu). A nica tristeza (se  que se pode chamar
tristeza)  no terem, Bentinho e Capitu, um filho. Por isso, fazem promessas e
rezam continuamente. E o filho vem: um menino, a alegria dos pais. Chama-se
Ezequiel. Escobar vem morar mais prximo de Bentinho e Capitu. Certo dia,
Escobar se aventura nadando pelo mar agitado e morre afogado. Sancha retira-se
para o Paran, onde possua parentes.
E a vida continua, feliz. S uma coisa principia a preocupar cada vez mais
seriamente a Bentinho: Ezequiel,  medida que vai crescendo, vai-se tornando uni
retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traos, o mesmo cabelo, os mesmos
olhos, o mesmo andar, at os mesmos tiques. A dvida atormenta Bentinho, e
uma infinidade de pequenas coisas que no passado haviam passado despercebidas
comeam a avolumar-se confirmando as suspeitas: Capitu o trara. Um dia explode
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com Capitu, que no consegue encontrar meios de escusar-se. Pelo contrrio, suas
desculpas confirmam definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa adltera? E o
filho de Escobar para a Sua, onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem a
falecer. Ezequiel, j moo, surge em casa de Bentinho: tornara-se a cpia do pai.
Ezequiel no pra no Brasil e, participando de uma excurso no Oriente, tambm
morre.
 o trmino do livro. Conclui Machado de Assis: A minha primeira amiga e o meu
melhor amigo, to extremosos ambos e to queridos, tambm quis o destino que
acabassem juntando-se e enganando-me. A terra lhes seja leve!
Narrado na primeira pessoa, Bentinho (D. Casmurro), prope-se a ATAR AS DUAS
PONTAS DA VIDA. Ao evocar o passado, a personagem  narrador coloca-se num
ngulo neutro de viso. Dessa maneira, pode repassar, sem contamin-los,
episdios e situaes, atitudes e reaes, acompanhadas apenas da carga
emocional correspondente ao impacto do momento da ocorrncia.
Simultaneamente, ope a esse ngulo de reconstituio do passado o ngulo do
prprio momento da evocao, marcado pelo desmoronamento da iluso de sua
felicidade. Dessa forma temos uma dupla viso da experincia, reconstituda em
termos de exposio e de anlise. A viso esfumaada do adultrio  um dos
requintes do Bruxo do Cosme Velho (Machado). Parece inspirado no drama de
Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: olhos de ressaca, cigana oblqua e dissimulada  a mais forte criao
de Machado. Com inalterada frieza e racionalidade calculada vai tecendo o seu
destino e tambm o dos outros.
ESA E JAC
 a histria dos gmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade, que desde o
nascimento dos meninos s pensa num futuro cheio de glria para eles.  medida
que vo crescendo, os irmos comeam a definir seus temperamentos diversos:
so rivais em tudo. Paulo  impulsivo, arrebatado, Pedro  dissimulado e
conservador  o que vem a ser motivo de brigas entre os dois. J adultos, a causa
principal de suas divergncias passa a ser de ordem poltica  Paulo  republicano
e Pedro, monarquista. Estamos em plena poca da Proclamao da Repblica,
quando decorre a ao do romance.
At em seus amores, os gmeos so competitivos. Flora, a moa de quem ambos
gostam, se entretm com um e outro, sem se decidir por nenhum- dos dois: 
retrada, modesta, e seu temperamento avesso a festas e alegrias levou o
conselheiro Aires a dizer que ela era inexplicvel. 0 conselheiro  mais um
grande personagem da galeria machadiana, que reaparecer como memorialista no
prximo e ltimo romance do autor: velho diplomata aposentado, de hbitos
discretos e gosto requintado, amante de citaes eruditas, muitas vezes interpreta
o pensamento do prprio romancista.
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As divergncias entre os irmos continuam, muito embora, com a morte de Flora,
tenham jurado junto a seu tmulo uma reconciliao perptua. Continuam a se
desentender, agora em plena tribuna, depois. Que ambos se elegeram deputados,
e s se reconciliam ao fim do livro, com novo juramento de amizade eterna, este
feito junto ao leito da me agonizante.
Narrado em terceira pessoa pelo o Conselheiro Aires. H referncias  situao
poltica do Pais, na transio Imprio/Repblica.  marcado pela ambigidade e
contradio. Pedro e Paulo so os dois lados da verdade.
MEMORIAL DE AIRES
Este  o ltimo romance do autor. Aqui, dois idlios so narrados paralelamente, ao
longo das memrias do conselheiro Aires, personagem surgido em Esa e Jac: o
do casal Aguiar e o da viva Fidfia com Tristo. Trata-se de um livro concebido
em tom ntimo e delicado, s vezes repleto de melancolia. Nele Machado de Assis
ps muito dos ltimos anos de sua vida com Carolina, falecida quatro anos antes
da publicao. No h muito que contar, seno pequenos fatos da vida cotidiana de
um casal de velhos. 0 estilo  de extrema sobriedade, e o autor, j na velhice,
pretendeu com este livro prestar um depoimento em favor da vida, ainda que em
tom de mal disfarada tristeza e at mesmo desolao.
Memorial de Aires (1908) opera um verdadeiro retrocesso na obra machadiana.
Nele o romancista retorna  concepo romntica, mitigada pelo ceticismo risonho
do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma atmosfera dos seus primeiros
romances: os seres so de eleio e a vida gira em torno do amor. Distingue-o,
porm, e torna-a muito superior queles a mestria do ofcio, o domnio do
instrumento.
Como novidade, traz a forma de dirio e o narrador no  onisciente; observa
como simples comparsa os personagens principais, procura adivinhar-lhes o ntimo
atravs de suposies prprias ou atravs de informaes alheias  a dar alguma
idia do processo de Henry James, este, entretanto, muito outro, com outras
intenes e de outra tessitura.
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